Nascemos com Nosso Destino Traçado?

Em Romanos 9:22-23, Paulo fala em “vasos de ira, preparados para a perdição” e “vasos de misericórdia, preparados de antemão para a glória”. Não seria isso dupla predestinação: uns para a salvação e outros para a perdição?

Devemos nos aperceber de que, em Romanos 9, Paulo trata de dois tipos de predestinação: de papéis ou funções e de caracteres. Analisemos os dois tipos:

1. Predestinação de papéis ou funções - Esse tipo de predestinação é mostrado com o exemplo de Jacó e Esaú, em Romanos 9:11-13: “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, não por obras, mas por aquele que chama), já fora dito a ela [Rebeca]: O mais velho será servo do mais moço. Como está escrito: Amei a Jacó, porém Me aborreci de Esaú.” Aqui, Paulo não está falando em “eleição” ou predestinação para a salvação ou perdição, e sim para papéis ou funções no mundo. Jacó, o mais novo, teria um papel mais importante que o do irmão Esaú. Antes do nascimento dos gêmeos, Deus escolheu Jacó para ser o ancestral do Messias. E por que escolheu Jacó e não Esaú? Porque Deus é soberano. Ele escolhe quem quer. Contudo, devemos entender que a escolha soberana de Deus não se dá no vácuo, isto é, por um mero capricho. Em Sua presciência, Deus sabia que tipo de pessoa seria Jacó: mesmo tendo sido enganador algumas vezes, ele “lutaria com Deus” e consigo mesmo para ser uma pessoa melhor e diferente. Sua luta com Deus no vau do ribeiro Jaboque (Gn 32:24-32) foi o momento de seu arrependimento e conversão, tanto que teve seu nome mudado de Jacó, enganador, para Israel, príncipe de Deus. Desse modo, Jacó se tornou habilitado para ser ancestral do Messias, e Jesus nasceu de sua família. Por esse papel destacado na história, Jacó se tornou um “vaso de honra” (Rm 9:21).

Já Esaú, por ter sido “impuro” e “profano” (Hb 12:16), não foi escolhido para o importante papel de ancestral de Cristo. Contudo, ele ainda poderia ser salvo, se assim o desejasse. A escolha de seu irmão Jacó para um papel de destaque não significava que ele, Esaú, devesse perder sua salvação. Esaú e seus descendentes, os edomitas, não tiveram a mesma importância histórica que tiveram Jacó e os israelitas. Foram ”vasos para desonra”, ou “vasos com menos honra” (Rm 9:21). Mas deve-se lembrar de que um vaso “para desonra” ou “menos honra”, como uma lixeira, por exemplo, não é menos útil que um “vaso para honra”, como um vaso para flores, por exemplo. Vasos “para honra” ou “para desonra” não têm nada que ver com salvação ou perdição, e sim com posições de maior ou menor destaque no mundo.

2. Predestinação de caracteres - Esse tipo de predestinação é apresentado pela figura de dois tipos de vasos: “vaso de ira” e “vaso de misericórdia”. “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a Sua ira e dar a conhecer o Seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas de Sua glória em vasos de misericórdia, que para a glória preparou de antemão, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Rm 9:22-24). Esse tipo de predestinação indica que Deus “predestinou”, ou “determinou”, que quem tiver um caráter justo se salvará e quem tiver um caráter mau se perderá. Note que é o tipo de caráter que é predestinado, e não pessoas. Cada pessoa é livre para escolher que tipo de caráter irá desenvolver. Quem (pelo poder de Deus) desenvolver um caráter justo será salvo, tornando-se “vaso de misericórdia”. E quem, ao contrário, desenvolver caráter mau se perderá, tornando-se, assim, “vaso de ira”. A esta altura de nossa análise, é importante deixar bem claro que os vasos não devem ser ”misturados”, isto é, “vaso de honra” não é o mesmo que “vaso de misericórdia”, nem “vaso de desonra” o mesmo que “vaso de ira”. Os vasos “para honra e para desonra” têm que ver com maior ou menor destaque na história, e é Deus quem escolhe; os vasos “para ira e para misericórdia” têm que ver com o tipo de caráter que poderá resultar em perdição ou salvação, e são as pessoas que escolhem que tipo de vaso desejam ser, ou que caráter irão desenvolver.

Pelas informações bíblicas, vemos que Jacó tanto foi um ”vaso de honra” (pela escolha divina) quanto um “vaso de misericórdia” (por sua escolha em se arrepender e mudar de vida). Ele teve papel destacado no mundo, tornando-se ancestral de Cristo, bem como estará, como “vaso de misericórdia”, entre os salvos (ver sua menção entre os heróis da fé, em Hebreus 11:21, 22). Já seu irmão Esaú, além de ter sido um “vaso para desonra” (ou menos honra), ou seja, não ter tido papel de destaque no mundo, pelo seu caráter “impuro e profano” (Hb 12:16), tornou-se também um “vaso de ira” e, a menos que tenha se arrependido antes de morrer, estará entre os perdidos.

Nosso papel no mundo (de maior ou menor destaque) depende, em grande medida, dos dons ou habilidades naturais com os quais Deus nos dotou ao sermos gerados e das oportunidades que Ele nos propicia ao longo da vida. Essa decisão é dEle. Nossa parte é desenvolver ao máximo essas potencialidades. Mas não nos esqueçamos: todos são úteis, com muita ou pouca honra, com maior ou menor destaque. Mas, quanto à salvação ou perdição, podemos escolher se vamos ser “vasos de misericórdia” ou “vasos de ira”. O tipo de caráter desenvolvido determinará se estaremos entre os salvos ou entre os perdidos. Você já fez sua escolha? -

Por Ozeas C. Moura, doutor em Teologia Bíblica e professor de Teologia no Unasp, campus de Engenheiro Coelho, SP. Publicado na RA de Ago/2010.

Uma ideia sobre “Nascemos com Nosso Destino Traçado?

  1. O presente artigo é um exemplo daquilo que podemos chamar de “embromação”. Desdiz o que a Bíblia diz e ainda se contradiz. Um exemplo disso está na afirmação do articulista: “Porque Deus é soberano. Ele escolhe quem quer. Contudo, devemos entender que a escolha soberana de Deus não se dá no vácuo, isto é, por um mero capricho. Em Sua presciência, Deus sabia que tipo de pessoa seria Jacó: mesmo tendo sido enganador algumas vezes, ele “lutaria com Deus” e consigo mesmo para ser uma pessoa melhor e diferente.” E esta afirmação veio de um “doutor em teologia”! É pena que nossos teólogos estejam tão abaixo da qualidade que o povo de Deus necessita.
    Outro articulista escreveu para o portal Creio o seguinte: “Especialistas rebatem teoria bíblica e contestam direito de escolha.” Refere-se ele à às novas descobertas de neurocientistas, que, através de estudos, entenderam que o livre-arbítrio não existe. Para ele, isso – ao invés de confirmar a Bíblia – estaria em total afronta à sã doutrina, pois – segundo o articulista – o livre arbítrio é bíblico. Será?
    Esse mesmos “teólogos” que ensinam o livre arbítrio incoerentemente oram a Deus pela salvação dos seus entes e amigos queridos. Ao fazê-lo, não se apercebem que estão tributando a Deus o poder exclusivo de mudar a condição decaída do homem, de conduzir o homem a tomar uma “decisão”. Sendo assim, por que Deus não modifica o destino de toda humanidade? Por que a fé só é cedida a poucos? Por que muitos são chamados, mas poucos são os escolhidos? Ora, dizer que Deus não interfere nas nossas decisões é uma doutrina claramente contrária à Bíblia e contrária à nossa prática de fé, pois negamos, com isso, as orações que fazemos pelos nossos próximos. A vontade, nesse caso, não pode ser “livre”, pois nossos arbítrios estão presos à nossa condição decaída.
    Quero chamar a atenção dos senhores para uma questão bíblica. É verdade que Deus sempre chama o homem à responsabilidade; a todo o momento nos é dito: – Venham, façam, obedeçam… Mas, quando o fazemos, a Bíblia diz que foi Deus quem nos conduziu a fazê-lo. O mérito é sempre dEle, jamais nosso. Vou citar alguns exemplos tirados da Palavra a seguir:
    1. Em Ezequiel 18:31, lemos: “Lançai de vós todas as vossas transgressões com que transgredistes, e fazei-vos um coração novo e um espírito novo; pois, por que razão morreríeis, ó casa de Israel?”. Veja: Deus está dizendo a Israel para tomar novas atitudes. Mas em Ezequiel 36:26 o Senhor afirma claramente que é Ele quem concede essas novas atitudes: “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne”.
    2. Temos que nos lembrar ainda do fato acerca do endurecimento do coração de Faraó. No livro de Êxodo vemos alternâncias entre “o coração de Faraó se endureceu” ou “Faraó… endureceu o seu coração” (7:13 e 22; 8:15, 19, 32; 9:34-35) e “o SENHOR endureceu o coração de Faraó” (9:12). Afinal, foi Deus quem endureceu o coração de Faraó, o seu coração se endureceu sozinho ou foi o próprio Faraó quem o endureceu? Se quisermos realmente entender melhor esse endurecimento do coração de Faraó, temos que observar cuidadosamente as palavras de Deus a Moisés. Em Êxodo 4:21, Ele afirmou: “Eu lhe endurecerei o coração”. A mesma profecia é dita em 7:3 (“endurecerei o coração de Faraó”). O que temos que entender aqui é que, do ponto de vista humano, Faraó foi um obstinado, um homem “duro de coração” (como éramos também, antes do Espírito Santo dar-nos um novo coração) e, portanto, era o único responsável por isso.
    3. Em João 6:44 está escrito: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia”. Ora, meus caros senhores, aqui nos é dito que é claramente Deus quem conduz o homem a Cristo. Por que então Ele não conduz todos os homens, já que todos são chamados? Será que estamos realmente compreendendo o papel divino na condução dos eventos universais?
    4. Em Romanos 9:18, Paulo, falando sobre o já citado “endurecimento” do coração de Faraó, diz que Deus “…compadece-se de quem quer, e endurece a quem quer.” Logo depois diz: “E que direis se Deus, querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição; para que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou, os quais somos nós, a quem também chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os gentios?” (Romanos 9:22-24). O que é isso, senão uma clara declaração de que Deus intervém nas nossas decisões? Sendo assim, onde fica o livre arbítrio? Os vasos da ira foram preparados para a perdição, é o que diz o texto. Já os vasos de misericórdia foram preparados para a glória.
    5. O que é a fé salvadora, senão um dom gratuito de Deus concedido por meio da Sua maravilhosa graça? “Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.” (Efésios 2:8). Em João 1:12-13, nos é dito que os que creem são nascidos da VONTADE DE DEUS, e não por vontade própria: “Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.”. Sendo assim, por que Deus não concede a fé a todos os homens?
    6. Em Filipenses 2:12, Paulo manda os crentes a operarem a salvação, a agirem: “De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor”. Mas, no versículo 13, ele deixa claro que, quando agem, não são os crentes que agem, mas Deus: “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.”

    Portanto, não há qualquer circunstância na Bíblia que demonstre que nossas ações são “livres” da intervenção divina. Deus está no controle de todas as coisas, até mesmo de nossas “ações livres”. “Não me escolhestes vós a mim, mas eu vos escolhi a vós, e vos nomeei, para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto em meu nome pedirdes ao Pai ele vo-lo conceda.” (João 15:16). Ora, se Ele age até mesmo para nos capacitar ao serviço, quando mais Ele agirá para conduzir-nos a “aceitar” Sua salvação.
    Toda honra e toda glória sejam dadas somente a Deus, que nos elegeu e nos capacita a estamos di9ante dEle. Amém!

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